
Em menos de dois meses, uma sequência de acidentes fatais em pontes e viadutos de Teresina e Timon (MA) acende um alerta preocupante sobre a segurança viária na capital piauiense. Ao menos três ocorrências graves resultaram em mortes, revelando um padrão que vai além de casos isolados.
O primeiro registro ocorreu em 4 de fevereiro deste ano, na Ponte Metálica, que liga Teresina a cidade de Timon-MA. A jovem Micaela Carolina Rodrigues de Sousa, de 23 anos, passageira de um motocicleta por aplicativo, morreu após o veiculo que estava derrapar durante a travessia. Ela seguia para uma entrevista de emprego. Com a queda, colidiu contra a estrutura da ponte e morreu ainda no local.
Após o acidente, representantes do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Piauí (Crea-PI) inspecionaram a Ponte Metálica. Com a recomendação para os motoristas uma velocidade reduzida ao transitar pela ponte e ter cautela, principalmente pelo atrito dos pneus com os trilhos presentes na ponte.
Outra tragédia foi registrada nas pontes que ligam Teresina a cidade de Timon-MA, dessa vez na ponte da Amizade. No ultimo dia 18 de março, o motociclista por aplicativo Francisco Willame dos Santos Silvas, de 27 anos, morreu após cair da estrutura. Segundo a Guarda Civil Municipal de Timon, um carro teria encostado na motocicleta, fazendo com que o condutor perdesse o controle e caísse junto com a passageira.
O caso mais recente aconteceu na Zona Sul de Teresina, o jovem Jeferson Morais da Silva Leal, de 21 anos, morreu após um acidente no viaduto da Tabuleta. Ele seguia para o trabalho em uma borracharia, colidiu na traseira de um veículo parado e caiu da estrutura. A vítima chegou a ser socorrida, mas acabou falecendo um dia após o acidente no hospital.
Apesar das circunstâncias distintas, os acidentes têm pontos em comum: envolvem motocicletas, ocorrem em estruturas elevadas e resultam em quedas com alto potencial de letalidade. A repetição em um curto intervalo de tempo levanta questionamentos sobre as reais condições de segurança dessas vias.
Para a advogada Lorena Corrêa, especialista em Direito no Trânsito, primeira mulher a ocupar a Junta Administrativa de Recursos de Infrações (JARI) da PRF no Piauí e ex-vice-presidente da Comissão de Direito de Trânsito da OAB/PI. O problema é multifatorial e envolve tanto o comportamento dos condutores quanto falhas estruturais.
“Esse aumento de acidentes em pontes e viadutos não acontece por um único motivo, mas por um conjunto de problemas”, explica.
Infraestrutura e crescimento descompassados
Segundo a especialista, o crescimento da frota, principalmente de motocicletas, não foi acompanhado pela adaptação das vias.
“Hoje temos muito mais veículos nas ruas, principalmente motocicletas, mas muitas dessas vias não acompanharam esse crescimento. Foram projetadas para uma realidade antiga e hoje estão sobrecarregadas”, afirma.
Além disso, ela aponta falhas que potencializam a gravidade dos acidentes.
“Problemas como pista irregular, sinalização que nem sempre é clara e a falta de proteção adequada nas laterais dessas estruturas aumentam muito o risco, principalmente por se tratarem de locais mais altos.”
Resposta do (CREA-PI)
Após o acidente no viaduto da Tabuleta, o Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Piauí (Crea-PI) realizou inspeção e descartou problemas estruturais, reforçando a recomendação de reduzir a velocidade, a mesma recomendação após o acidente da ponte metalica, no mês de fevereiro.
No entanto, essa resposta tem sido alvo de críticas. Para Lorena Corrêa, o foco exclusivo no comportamento do condutor é insuficiente.
“Falar apenas em reduzir a velocidade é importante, mas não resolve tudo. Não dá para colocar a responsabilidade apenas no condutor. O poder público também precisa garantir vias seguras, como determina a legislação de trânsito.”
O que precisa mudar
Diante da sequência de tragédias, a especialista defende medidas concretas e imediatas para reduzir os riscos nessas estruturas. Entre os principais pontos destacados estão:
Melhoria da sinalização;
Recuperação da qualidade do pavimento;
Reforço nas barreiras de proteção lateral;
Aumento da fiscalização;
Campanhas de orientação, especialmente para motociclistas.
Com acidentes fatais ocorrendo em sequência e em curto espaço de tempo, cresce a pressão por respostas mais efetivas. Para especialistas, a repetição dos casos indica que apenas alertas não são suficientes.
“Se não houver ação prática e rápida, a tendência é que esses acidentes continuem acontecendo. Não basta orientar, é preciso melhorar de fato as condições das vias para proteger vidas”, conclui Lorena Corrêa.